Bom-senso só pode ser conceito quando seja a própria sensibilidade o preconceito. O caso que testemunhei hoje, e agora aqui te trago agora, parece-me interessante exemplo de tal: considero que ontem tive o privilégio de assistir a uma das aulas, a meu ver, mais interessantes de sempre na faculdade. Afinal, matéria que o professor explicava, e que para mim foi clara de compreender e aceitar, não o foi para um outro colega, o que deu azo a que expusesse a sua dúvida ao professor, assim proporcionando o mote entre os dois para uma discussão interessantíssima que se desenvolveu até ao fim da aula. Com e por aquela discussão vi colegas desinteressados, vi colegas desinteressarem-se... e só a esses eu não compreendi!
A cadeira dá pelo nome de Ecologia Humana. E visa, segundo o que pessoalmente depreendi da explicação do docente responsável, dotar os alunos de uma abertura, consciencialização até, para a complexificação que preside a própria manifestação da natureza humana enquanto inserta numa realidade ambiente maior, que nos transcende. É porque o ser humano per se representa desde logo um agente nesse sistema que, em consciência, deve admitir-se factor de risco para o equilíbrio traduzível na existência da realidade ela própria e, atentando consequentemente nesta condição não exclusiva – note-se que a biodiversidade nãos e resume ao dizível “ecossistema humano” –, decidir-se fazer da sua própria acção uma sustentável e sã contribuição para a manutenção de tal equilíbrio.
Ora, foi justamente este conceito – equilíbrio –, mais propriamente na sua manifestação, o motivo da discussão que aqui lembro e te invoco. Procurando, aliás, esbater e menosprezar a parte má desta memória, que se prende justo com o desinteresse da maioria dos colegas na sala pela discussão: desde os que se riram vá-se lá descobrir de quê aos que deixaram a sala antes de a aula terminar, passando claro está pelo clássico que constitui o “prefiro falar para o lado, só contigo, a ouvir o que está o outro para ali a dizer ao professor, a quem nada importa se a gente quer ouvir…”. Dizia então, ao professor, o colega da dúvida que não conseguia compreender a ideia de equilíbrio instável que o professor procurava transmitir, por só lhe fazer sentido haver equilíbrio ou não haver equilíbrio. O curioso disto é que, a meu ver, nem o dito colega pensava mal nem o professor transmitia uma ideia errada. Estava aqui em foco, portanto, o valor da diferença possível, por assim dizer. Mais: às tantas, fruto da evolução da discussão que entre eles se havia gerado, ficou o colega preocupado por se achar formatado a um pensamento “um de dois”, “sim ou não”, “A ou B”, enfim. Mas se eu fosse ele não me preocuparia; porque a sua dúvida, sem dúvida pertinente, revelou uma legível e bem rara inteligência sensível, expressa tão simplesmente na atitude de quem se admite disposto a confrontar por si o que não lhe deviam ter incutido imbuído de um qualquer convencionado espírito de “não pode ser posto em causa”. Falo quer do conhecimento que já deterá o próprio (transversal a tantos de nós, de resto) quer da sua atitude pessoal face à percepção desse conhecimento, e na prossecução de outros por adquirir – que, quer-me parecer, se alteraram ontem.
Devo por tudo isto dizer-te que, por conhecer mais que minimamente este colega de que falo, e por quem tenho sem dúvida um respeito tão grande como raro, estou convicta e invictamente inabalável de que pôde descobrir nesta lição de ontem uma quiçá rara oportunidade de ajuda à auto-coerência; e com isto quero dizer: a abertura plausível ao ponto de vista que, mais que alternativo, é de facto diferente, qual terceira via, diferente via quanto à possibilidade, a meu ver efectiva, de percepcionar e abordar tanto a realidade como o conhecimento que dela se tem e não tem. Porque o equilíbrio, sendo um encontro de forças que actuam de forma dinâmica tanto em si como entre si, é verdadeiramente possível em mais que apenas duas combinações. Como acontece, aliás, com tudo o mais - conquanto, claro está, seja possível.
Pessoalmente – e digo-o com segurança porque, talvez por acaso, já havia pensado antes sobre a questão –, talvez nunca tenha duvidado de que o ou sim, ou sopas só serve para nos limitar, nos deformar o exercício da racionalidade.

epah bem dito, colegas malvados e dotados de insensibilidade no que ao conhecimento toca... saírem a meio de uma aula tão interessante como essa... eu próprio admito que fui um deles e devo confirmar é muito mais interessante sair de uma aula dessas e ir fazer o que a escória dos estudantes académicos faz que é nada do que assistir a uma aula em que o professor doutorado e respeitado diz ao interessante e respeitado colega "olhe lá não invoque Deus que Ele pode cair de lá de cima" ...
ResponderEliminarAdorei. És útil à sociedade. Portugal precisa de mais pessoas como tu! Continua assim.
ResponderEliminaresqueci de me identificar*
Muito bem escrito.
ResponderEliminarEvidencias aquilo que mostras apreciar: o direito à opinião