Falar de razoabilidade tem sempre muito que se lhe diga. Desde logo porque muito há que ultrapassa os limites do razoável – bem o sabemos –, podendo acrescer o facto de a noção de razoabilidade ser diferente em todos nós... Quiçá entendas este mesmo blog um entre tantos exemplos possíveis de falta dela; todavia, refugiando-me naquela ideia de mau juiz de causa própria, prefiro ainda assim falar de outro caso concreto.
Este semestre, e após me haver anteriormente informado por amigos de História, decidi ter uma cadeira livre do dito departamento. Bem diferente do politicamente correcto a que estou acostumado, devo dizer. Paleografia e Diplomática.
Poucas aulas tivemos ainda, é bem verdade, mas a experiência não podia estar a ser melhor: tanto o professor como a turma em si, apesar de grande, ajudam decisivamente a criar na mesma sala, apertada, aula após aula, o ambiente ideal para se aprender algo que, não sendo nada desinteressante, não é propriamente fácil. De facto, o único senão até ao momento é a qualidade rasca do suporte dos documentos estudados – fotocópias que, miraculosamente, fazem o original parecer-lhes ulterior quando lhe comparadas. Contudo, importa seguramente dizer que é o professor quem nos traz as ditas cujas e, porque assim é, reconheço que a cavalo dado não se olha os dentes.
Em boa verdade que digo que não são as aulas o que me aflige. É-o, sim, a minha recente percepção de que me encontro em situação de privilégio, tão evidente quanto voluntário. Digo-o não a pensar no meu aproveitamento, que espero ser tão bom quanto deve ser em qualquer outra cadeira; digo-o, sim, porque me aflige ver como a cadeira passa desconhecida naquele antro – que fará noutros onde existe igualmente, já que não é exclusivo da casa… –, exceptuando-se compreensivelmente, claro está, o departamento de História, onde ainda assim existe como opcional. Basta pensarmos na forma como tomei conhecimento da cadeira, meramente por acaso, sendo igualmente reveladora a reacção de pura fobia e retracção mental da maioria dos meus colegas no departamento-base – e refiro-me estritamente a alguns entes academicizados que a honra de dar conhecer a mim coube afinal. Em mais que um sentido.
Não irrita – antes constitui padrão comportamental engraçado e interessante – a primeira reacção à palavra paleografia -> “O QuÊ??”; diferentemente, esmorecido é o que por norma lhe sucede, após a minha tentativa de explicação quanto ao que propõe a cadeira -> “ahah, mas tu gostas disso? para que é que isso te serve?”. Então eu penso [??? Pois… Assim é complicado.]
De que serve, pergunto-te então – logo a ti, que nada tens que ver com isto! –, estudarmos o que gostamos, nos interessa e pode vir a ser objectivamente útil, quando a nossa percepção da realidade é tão imensamente diferente da de quem, enterrado em preconceitos que nós próprios não compreendemos – provavelmente por deles nos havermos libertado há tanto, para já não pôr a horrível e lógica hipótese de nunca os havermos tido, de todo –, não está justamente por isso disposto a permitir-se pensar como se, só daquela vez e apenas daquela, estivesse no nosso lugar, tendo como tal os nossos gostos e mundividência? Clarificando: quão motivador te é explicares-te a outro, apercebendo-te ab initio, pela sua receptividade deformada, que esse esforço está condenado a ser em vão? De nada adianta, como saberás, falares o que cuidadamente desejas a quem não te quer, em espírito de liberdade, ouvir. 
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