Não há nada como conversar, em respeito, com as pessoas. Mesmo com as de que “não gostamos” (que é isso?...) – pelo andar da carruagem vejo que nunca me cansarei de repetir tal juízo. Assim é porque, pese embora tenhamos tido no Ensino Básico aquela vaga disciplina que dá pelo nome de “Formação Cívica”, acontece que não se revelou garante para criar em nós um espírito civilizado de discussão, qual valor social autenticamente prazenteiro e grato. Obviamente que limito tal juízo à “minha” geração – digo-o aqui e agora com a mesma mágoa que sinto quando o constato, de facto nitidamente indisfarçável sempre que o refiro. É justamente este todo algo complexo que serve de pretexto à historieta que a seguir apresento.
Era uma vez alguém que, não obstante ser obviamente mundano, não se reconhecia no próprio mundo. Procurando pelo seu lugar, e almejando perceber-se desde logo a si, não encontrava coisa alguma em que se pudesse rever, nem com que apenas e tão-somente se identificasse. E tão-pouco que bem compreendesse, por ventura.
Ora um dia veio, porém, em que foi tomada certa decisão. Nem era caso para menos: afinal de contas, descobrira a visada pessoa que não pensava o suficiente pela sua cabeça. Literalmente: ainda que, expectavelmente, a usasse para pensar desde tempos lhe imemoriais – nem se ponha tal em causa –, não ousava confiar em si ao ponto de pensar, de tornar por si própria inteligível o que com maior ou menor arte e ciência o é – e tudo isto, note-se, em perspectiva estrita, puramente pessoal. Isolada ou não… mas nem é isso que está em causa. Porque neste vasto e humanamente comprometido mundo que é o de todos nós quem não se interessa e esforça por conhecer a linguagem não pode sequer supor ser inteligente; é efectivamente o seu domínio que devemos procurar alcançar, para lá de um mínimo que eu até poderia considerar legitima e pragmaticamente aceitável, já que só assim se nos afigura mais possível de percepcionar o transversal mundano inteligível.
Com efeito, porque se encontrava farta, saturada, desiludida com o facto de não se integrar suficientemente nesse todo de que também fazia parte, ousou a mesma pessoa pôr enfim término aos preconceitos ideais e fantasiosos a que fora impelida pela própria sociedade a que por imposição natural também ela pertence – preconceitos esses que abominava, é certo. Destarte, pese embora tenha passado a correr o risco de tornar perceptível a terceiros esse desconforto interior, fruto e prova da lucidez de que contudo sempre dispusera no seu íntimo, decidiu-se então enveredar pelo pragmatismo apenas experienciável a título pessoal que só a reconciliação do sujeito consigo mesmo pode proporcionar a cada um. Todas a coisas, sem excepção, têm o seu porquê válido, ainda que este o seja mais ou menos averiguável; sobre justo isto apraz-me dizer-te que não deve haver vergonha em admitir que nem mesmo são excepção aquelas coisas cujo porquê ainda desconhecemos, e/ou nunca viremos a conhecer. Mas o facto é que esse porquê existe e, bem vistas as coisas e à semelhança de tudo quanto não seja desprovido de razão de ser, é um porquê que tem e que faz todo o sentido típico de todas as coisas que fazem igualmente sentido.
Porque muito mais que um motivo achou justificá-lo, a pessoa em questão quis, pois, mudar-se. E o facto é que conseguiu fazê-lo, provando antes de mais a si mesma que é sempre possível mudar – e para melhor, idealmente. Assim queiramos!
Mas que se achava em necessidade de mudar, afinal? Tão-somente a sua forma de estar no mundo, isto é – e concretizando –, de se servir da linguagem, essa ferramenta auxiliar comungada de que todos dispomos, para comunicar com os que a rodeiam, parte de um todo maior e de certo nada facilmente delimitável que a rodeia e envolve. Que importa, pergunto-te, o faz o que eu digo, não o que eu faço? É sempre tempo – é sempre o tempo! – de fazeres o que eu digo: e, mais que fazê-lo porque vês que é o que faço eu também, será certo, claro está, que me importa explicar-te porque o faço. Porquê? Para que por ti, em consciência, decidas livremente se me hás-de acompanhar. Destruamos os preconceitos negativamente estacionários e rumemos à empresa da erradicação do próprio conceito “hipocrisia”!
Uma das piores coisas que pode acontecer a cada um de nós é sermos incapazes de ter o auto-discernimento suficiente para averiguar da necessidade ou não de mudarmos. A religião, exemplo que entendo paradigmático relativamente a parte do que me propus aqui transmitir-te, não me parece coisa inteligível. Não desrespeitando de todo, obviamente, quem acredita – nem me cabe, como a ninguém, julgar os actos dos outros à luz dos meus… –, desde logo por isto mesmo, e contudo também em linha de continuidade quanto ao que venho dizendo (e não apenas neste texto, como aliás creio surgir-te evidente por esta altura), não posso considerar inteligente quem (se) entenda religioso. Afinal, que abuso dessa humana capacidade de tornar inteligível é esse que, pegando na fé – crença obstinada, desprovida de racionalidade em detrimento da emotividade dubiamente segura e segurada – e substituindo-a em absoluto a tudo o mais, ora em importância ora em validade (e, como tal, em verdade), desta feita procurando provar em consciência, no fundo, que entende ser passível de tornar inteligível o todo e seu transcendente ou além de dado modo que efectivamente não é possível, justificável, razoável?? E porque o teria de ser, pergunto aliás. E pergunto-o a ti, porque é a ti somente cuja resposta a esta pergunta importa, interessa descobrir; diferentemente do que comigo sucede, já que me preocupo tendencial, e tendenciosamente – é verdade, e portanto há que admiti-lo – com as coisas com que me devo preocupar. Falo, claro está, daquelas coisas que realmente o são, com as quais há de facto com que uma pessoa se preocupar. Para encerrar a questão digo que, a julgar pelo que dizem tantos acerca de todo o ser humano ser religioso, me vejo a este respeito(des)necessariamente “não-alinhado” com os meus semelhantes biológicos. Nem tão pouco ousaria mentir, dizendo por exemplo que alguma vez senti em mim esse apelo religioso – essa curiosidade pelo espiritual e fascínio pela demanda do meu deus. Talvez porque o meu deus é, numa ideia, o não o ser, o não se pôr a questão de todo: no fundo, a não problematização da realidade que objectivamente não me importa nem me apela conhecer.
Trouxe-te hoje uma reflexão acerca de alguém que, mal ou bem, vais já conhecendo um pouco melhor – eu próprio. E tu, estás também disposto a tornar-te melhor? Ou, antes, nem pões sequer a questão de (ter de) mudar?...
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