Há muito que me sei sensível a coisas a que outros não são. E vice-versa. Mas esta julgo digna de ser contada ao (II) Mundo; e não é que devo ter mesmo a mania!, pois esta não vai ser a primeira vez que falo aqui, moralizadoramente, de educação. Para o efeito, dissertarei agora muito brevemente sobre palmas: o seu oportunismo, intensidade e duração exprimem reconhecimento, agrado, os quais diferem tanto porque julgados indivudualmente como porque em função das circunstâncias; não deixa tal acto, contudo, de significar atenção, porventura; até porque é uma importante manifestação de contacto social, no sentido em que constutui parte da luta contra a "pretensa, indesejada ilha" do individualismo solitário. Não obstante, traduz ainda respeito e educação – boa educação.
Poderia agora seguir o caminho da explicação de como se deve bater palmas nos diferentes espaços e espectáculos públicos, em função da natureza dos seus eventos e protagonistas – estes variáveis, como se pressupõe –, até porque não é de agora que me apercebo que a maioria das pessoas não sabe, não pode fazê-lo adequadamente. É: bater palmas tem mesmo uma ciência própria – é mais do que emitir um som estridente juntando as palmas das mãos… E confesso que não sei onde, porquê, como e por quem – e até com quem, se – aprendi a fazê-lo, se é que o sei sequer, mas o facto é que tenho para mim essa noção do como. Sucede, porém, que contra bons factos não há argumentos inteligentes: não sou padre, pai, professor, sociólogo, nem tão pouco sou alguma espécie de entidade competente em matéria de moral – moralidade e moralização, no caso –, e por isso mesmo faço questão de não julgar terceiros, mas apenas de me julgar a mim próprio em sua função. Quando e se possível.
Ora, quero com tudo isto dizer que me ficarei, então, por falar do estranho, surreal, quase inacreditável caso de ontem mesmo, no qual me coube o feliz e isento papel de protagonista passivo: apresentei um trabalho na faculdade, com um colega. É verdade que foi por cinco minutos e que, diferentemente de grupos que haviam apresentado antes de nós, não nos baseámos em algum outro suporte que não as anotações de cada um, tópicos em simples folhas para nos guiar na exposição oral.
Dispensámos nomeadamente o PowerPoint, o que em certa medida traduz a nossa boa noção do pouco tempo que de facto tínhamos, tal como a nossa preocupação em desapegarmo-nos de elementos visuais, quais auxiliares de memória profundos, e a nossa vontade em falar olhos nos olhos com o auditório. Mas o nervosismo nestas coisas raramente não se manifesta, e só os mais experientes conseguem evitar enganos mínimos com astucioso controlo.
Como já poderás tu, leitor (a minha escrita tratar-te-à doravante por tu, e desculpa-me a eventual incorrecta familiaridade, qual forma de comunicação que tenho para mim ser mais madura), ter adivinhado, é o motivo que me leva a escrever este texto a ausência de palmas à apresentação do meu grupo. Não duvidando que a apresentação foi conseguida, até me pergunto é porque terá acontecido tal. (O que não vale a pena, bem (mal!) o sei, pois nunca saberei todas as cerca de quarenta respostas.) Mas, no fundo, apenas me preocupam as ilações, de tão negativas; olhando para mim, não duvido do meu bom senso e interesse, felizmente raras vezes mínimos nestas "coisas" da universidade como em tantas outras, pelo que me rejubila e conforta o pensamento de saber que comigo é diferente – sei-o porque fiz questão de experienciar logo a seguir, ao oportunamente ser o primeiro a bater palmas ao grupo que apresentou em seguida com a intensidade e duração de que o achei merecedor. Folgo em saber, de mim. Realmente, olha que nunca tinha pensado pudesse o acto de bater palmas dar-nos assim tanta informação – de mim e dos outros.

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