Toda a vida lembro ter ouvido dizer “estamos em crise”. Mas proporciono-me agora, muito mais que antes, reflectir sobre a sua noção. Essa tão abstracta quanto intensa. Pergunto então o que é a crise, afinal.
É para muitos familiar a noção chinesa de crise: um ideograma composto por dois caractéres interessantemente combinados – o de perigo e o de oportunidade.
Pois bem: creio que falar em crise é, no fundo, falar com extraordinária clareza, mas também redundância, da normal processualidade da nossa sociedade. Quero dizer: a crise é algo absolutamente perceptível, verdadeiro; e, naturalmente, expectável.
Bastaria olhar para uma só vida, em analogia: qualquer ser animado cresce; e decai, depois. Ora, cada das nossas sociedades é composta por milhares – milhões até, em não raros casos – de homens e mulheres. Sendo que cada, seguramente ao seu próprio ritmo, cresce; para em seguida decair também. E tudo isto se dá ininterruptamente. Não será, por isso mesmo, a familiaridade com a crise um sinal de vivacidade? Mais: de progresso?
Não queiramos pensar diferente dos chineses, negando desse modo uma das mais empíricas verdades: admitindo que nada é estático e tudo se altera, deveríamos confinar a apreciação de crise ao que não funciona mais, porque esgotado. Ao que carece de actualização, de adaptação ao mais recente estado das coisas. Ao que nem sempre é possível de preservar, devendo nesse caso ser deixado cair.
Talvez toda a vida tenha ouvido falar de crise (e o mais certo é que continue a assim ser) porque tenho de ser lembrado que nunca tudo está bem, e que o que está mal é para mudar. Porque não me posso dar ao luxo de descartar qualquer oportunidade, mesmo que não seja para mim claro a priori qual a dimensão do perigo lhe subjacente.

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